Tuesday, July 25, 2006

O Brasil e o acesso às novas tecnologias

Emir José Suaiden

Segundo um estudo feito pela União Internacional de Telecomunicações – órgão da ONU -, o Brasil ocupa apenas a 71ª posição entre as 180 economias mais adaptadas às novas tecnologias de comunicação. Nesse dado, devemos mencionar também os contrastes nacionais existentes, pois a região Sudeste apresenta os mesmos níveis de países ricos e parte da população do Norte e Nordeste jamais teve acesso a um computador. Além da questão do acesso, outros itens importantes são os preços da ligação de celular, os de telefonia fixa, o acesso à internet, o preço da banda larga, etc. A utilização desses bens e serviços leva em conta o poder aquisitivo da população e o nível educacional, o que justifica a exclusão de parte importante da população na sociedade da informação.

Na verdade, o Governo anterior entendeu que sociedade da informação era a informatização da sociedade. Entendeu também que a solução para a inclusão digital seria a distribuição de computadores. Baseado nessa filosofia, milhões de computadores foram distribuídos, principalmente para as escolas públicas, sem nenhum programa de capacitação ou monitoramento. Até hoje não se tem os indicadores de impacto social de tamanho investimento.

Está cada vez mais claro que não basta distribuir computador, assim como não basta distribuir livros. No caso específico do livro, todos os anos são enviados centenas de títulos e milhares de exemplares do livro didático e, na verdade, não temos ainda um público leitor e a grande maioria dos alunos do ensino secundário não consegue interpretar o texto lido.

Os países que se adaptaram facilmente às novas tecnologias de informação e comunicação são os que possuíam tradicionalmente estruturas de informação e comunicação. Essas estruturas são representadas, em primeiro lugar, pela questão dos conteúdos, pois possuem indústrias de produção de conteúdos cujo forte componente é a indústria editorial e a produção científica.

Outro fator decisivo é a estrutura informacional representada pelas bibliotecas infantis, escolares, públicas ou universitárias e pelos centros de documentação e informação. Os veículos de comunicação de massa exercem um papel importante não somente na formação da opinião pública, como também na formação da cidadania, principalmente para os imigrantes.

Alguns países em desenvolvimento se aproveitaram da revolução tecnológica e deram um grande salto no processo de desenvolvimento. Os exemplos mais conhecidos são Cingapura, Irlanda e a região de Extremadura, na Espanha. Basicamente realizaram melhorias no sistema educacional copiando, por meio do Benchmarking, os modelos de sucesso na educação, utilizando em larga escala o software livre e metodologias de alfabetização em informação, alfabetização digital e mediação da informação.

No caso brasileiro, devemos levar em conta que o acesso não é tão importante quanto a compreensão. As pessoas excluídas da sociedade da informação têm de levar em conta que a compreensão e o acesso às tecnologias de informação e comunicação são importantes para combater o desemprego e melhorar a qualidade de vida.

Os programas promovidos pelo governo, iniciativa privada e terceiro setor devem levar em consideração que não basta distribuir computador ou simplesmente disponibilizá-lo. Deve haver um investimento na capacitação, no monitoramento e na avaliação, principalmente nos indicadores de impacto social.

Como parte importante da população brasileira se utiliza apenas da informação oral - e por isso muitas vezes torna-se objeto de manipulação pelo poder existente -, e não da bibliográfica e da tecnológica, é de extrema importância a utilização de metodologias de mediação da informação.

Juntamente com o programa de capacitação, a metodologia de mediação da informação demonstra que a auto-estima é proveniente da capacidade de buscar informação e de, agregando valor à informação, transformá-la em conhecimento. A referida metodologia se utiliza também do processo de identidade cultural, da formação da cidadania e, num estágio mais avançado, da formação de usuários críticos, ou seja, usuários produtores de conteúdos e não simplesmente consumidores de conteúdos disponíveis pelas tecnologias de informação e comunicação.

Inclusão com qualidade

Emir Suaiden

Essa é uma tendência mundial, cada vez mais a Internet será utilizada para capacitação, lazer, comunicação, comércio, difusão científica e tecnológica e outros itens menos nobres. Pois essa é uma tecnologia extremamente democrática. Basta ter um mínimo de poder aquisitivo, disponibilidade e capacidade de leitura e reflexão.

A grande discussão em todo mundo é sobre a capacidade de a Internet agregar valor ao processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, a tecnologia vence o livro como concorrente, pois muitos de seus usuários não tiveram acesso à revolução de Gutemberg. Essas pessoas acreditam que o livro é complexo, elitizado e de difícil compreensão e sempre afirmam que não dispõem de tempo para a leitura. O mundo da imagem e das cores é muito mais interessante para grande parte dos consumidores do mundo digital.

Também não está clara a relação dessa tecnologia com a pesquisa. Pode-se supor que as pessoas que não cultivaram o hábito de leitura quando cursaram o ensino fundamental e médio realizaram os trabalhos escolares copiando dicionário e enciclopédia. Na Internet, essa proeza é muito mais fácil. Basta acionar o control c e o control v.

É preciso deixar claro que toda grande revolução, toda grande inovação, traz, no seu bojo, a questão da exclusão. Quando Gutemberg inventou a imprensa, automaticamente criou os analfabetos e os iletrados. A revolução tecnológica criou os excluídos digitalmente. O grande questionamento passa a ser: como pessoas sem hábito de leitura podem ser incluídas na sociedade da informação? A resposta é complexa na medida em que sabemos que a informação que predomina na maioria dos municípios brasileiros é a informação oral adquirida na igreja ou na escola. A circulação da informação oral, em grande escala, propicia a manipulação da informação na formação da opinião pública. O problema aumenta na medida em que o excesso de informação também produz desinformação.

Em 2003, criamos, com o apoio do CNPq e da UnB, o projeto Escola Digital Integrada que basicamente trabalha com metodologias de mediação da informação e alfabetização digital. Os resultados foram surpreendentes. Os alunos que nem sabiam ligar o computador, hoje, já estão programando em Java, sabem realizar a verdadeira pesquisa bibliográfica e virtual, sabem escolher o site adequado baseado na autoridade do autor e na relevância do trabalho científico. A média de aprovação na escola pública que era de 3,5 a 4% passou a ser de quase 70%. A metodologia de mediação da informação foi incorporada pela Embrapa na formação da família rural e por quatro ministérios em projetos de inclusão digital para inclusão social.

A inclusão digital nas escolas públicas deve ter um caráter prioritário para possibilitar uma mudança na qualidade do ensino. No entanto, a dificuldade maior passa a ser a inclusão dos professores. Eles geralmente não têm auto-estima e julgam que os alunos, por pertencerem a uma outra geração, terão maior facilidade na inclusão digital. Só um processo de convencimento com a utilização de metodologia da mediação da informação possibilita a capacitação desses professores. Depois da capacitação, eles se convencem que a inclusão digital é um passo para melhorar o diálogo com os alunos e que é fundamental no processo ensino-aprendizagem.

Nos últimos meses, o Brasil bate recordes no acesso à Internet. Mas que benefícios, de fato, isso pode trazer para a população? Teoricamente, os benefícios são inestimáveis, pois o acesso eletrônico poderá promover a cidadania e melhorar o capital intelectual da comunidade, assim como os desempregados poderão conseguir emprego e melhor aproveitamento no compartilhamento dos recursos existentes. A Internet, também teoricamente, poderá ser o grande instrumento de inclusão das pessoas marginalizadas na sociedade da informação.

Na prática, entretanto, a questão é mais complexa, pois infelizmente o governo passado entendeu que a sociedade da informação seria a informatização da sociedade e, por causa disso, distribuiu milhares de computadores que foram e continuam sendo subutilizados.
Para realizar a verdadeira inclusão digital, é preciso investir em capacitação, em mediação da informação e em fontes de informação, além, é obvio, de computadores e conexão. Somente assim poderemos nos orgulhar do recorde conseguido pela Internet. Nesse sentido, devemos destacar que algumas ações são inovadoras e o grande exemplo é a Estação Digital da Fundação Banco do Brasil. Esse programa alia seleção, capacitação, acompanhamento e avaliação, além de equipamentos e conexão. Os indicadores de impacto produzidos pela Estação Digital confirmam a importância do projeto na inclusão das comunidades carentes dos municípios brasileiros.

Friday, March 31, 2006

Por que as livrarias morrem?

Emir José Suaiden
Professor Titular da UnB
emir@unb.br


Mais uma notícia trágica: a Livraria Nobel do Pátio Brasil vai fechar e todo seu estoque, cerca de 20.000 livros, serão vendidos com grandes descontos. Nos últimos anos nos acostumamos a ouvir essas notícias e devemos expressar a nossa indignação, pois já perdemos dezenas de livrarias como a Casa do Livro, a Brasiliense, e outras.
Para um país como o Brasil, que tem número reduzido de livrarias uma nova tragédia anunciada significa que o prejuízo não é só do proprietário da livraria.
Todos estão perdendo, pois quando morre uma livraria, morre também a grande esperança brasileira de um dia ter público leitor.
Morre o acesso à informação, pois a livraria demarca um ponto cultural de acesso à informação e ao conhecimento.
Morre a nossa expectativa de independência e soberania. No ano passado produzimos poucas patentes e, na verdade, os grandes produtores de patentes são os países que valorizam o livro, a leitura e conseqüentemente as livrarias.
Morre a esperança do ensino com qualidade, pois somente o livro pode melhorar a qualidade do ensino no Brasil e acabar definitivamente com a pesquisa baseada na cópia ou com control c e control v.
Morre a esperança de um dia acabarmos com as desigualdades sociais, pois o livro é o instrumento democrático que pode incluir grande massa da população brasileira na sociedade da informação.
Morre o sonho de acabarmos com a violência, pois os lugares onde há livraria e leitura são lugares onde não há violência e a insegurança.
Morre a esperança de reduzirmos o desemprego, pois jamais se ouviu falar que um leitor crítico está desempregado.
Morre o processo de construção da cidadania, pois hoje o que assegura a noção dos direitos e deveres na sociedade é a compreensão e o livre acesso à informação.
Morre a esperança de milhares de autores de receberem os direitos autorais.
Morre a esperança de acabarmos com a desinformação e principalmente com a manipulação da informação na formação da opinião pública, tão freqüente no período eleitoral.
Morre a esperança da melhoria da produção científica brasileira.
Morre um pouco da memória brasileira, já tão dispersa e tão concentrada na Library of Congress em Washington -DC
À medida que as livrarias morrem, adquirem sobrevida os inimigos da democracia, os defensores do livro didático único e os defensores do livro como instrumento de colonialismo cultural.
Na extraordinária obra A Biblioteca de Babel, falando de livros e bibliotecas, Jorge Luis Borges afirma o seguinte: “Suspeito que a espécie humana, a única, será extinta e que a biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorrompível, secreta”.
Umberto Eco afirma que a situação conhecida como cultura de massas tem lugar no momento histórico em que as massas entram como protagonistas na vida social e participam das questões públicas. Efetivamente, podemos dizer que grande parte da população da América Latina não participa das questões públicas por desconhecimento dos seus direitos e deveres na sociedade. Para participar é necessário estar informado. A carência de livrarias, bibliotecas públicas, o analfabetismo e a desnutrição infantil impedem que estas populações tenham acesso à informação.