Friday, March 31, 2006

Por que as livrarias morrem?

Emir José Suaiden
Professor Titular da UnB
emir@unb.br


Mais uma notícia trágica: a Livraria Nobel do Pátio Brasil vai fechar e todo seu estoque, cerca de 20.000 livros, serão vendidos com grandes descontos. Nos últimos anos nos acostumamos a ouvir essas notícias e devemos expressar a nossa indignação, pois já perdemos dezenas de livrarias como a Casa do Livro, a Brasiliense, e outras.
Para um país como o Brasil, que tem número reduzido de livrarias uma nova tragédia anunciada significa que o prejuízo não é só do proprietário da livraria.
Todos estão perdendo, pois quando morre uma livraria, morre também a grande esperança brasileira de um dia ter público leitor.
Morre o acesso à informação, pois a livraria demarca um ponto cultural de acesso à informação e ao conhecimento.
Morre a nossa expectativa de independência e soberania. No ano passado produzimos poucas patentes e, na verdade, os grandes produtores de patentes são os países que valorizam o livro, a leitura e conseqüentemente as livrarias.
Morre a esperança do ensino com qualidade, pois somente o livro pode melhorar a qualidade do ensino no Brasil e acabar definitivamente com a pesquisa baseada na cópia ou com control c e control v.
Morre a esperança de um dia acabarmos com as desigualdades sociais, pois o livro é o instrumento democrático que pode incluir grande massa da população brasileira na sociedade da informação.
Morre o sonho de acabarmos com a violência, pois os lugares onde há livraria e leitura são lugares onde não há violência e a insegurança.
Morre a esperança de reduzirmos o desemprego, pois jamais se ouviu falar que um leitor crítico está desempregado.
Morre o processo de construção da cidadania, pois hoje o que assegura a noção dos direitos e deveres na sociedade é a compreensão e o livre acesso à informação.
Morre a esperança de milhares de autores de receberem os direitos autorais.
Morre a esperança de acabarmos com a desinformação e principalmente com a manipulação da informação na formação da opinião pública, tão freqüente no período eleitoral.
Morre a esperança da melhoria da produção científica brasileira.
Morre um pouco da memória brasileira, já tão dispersa e tão concentrada na Library of Congress em Washington -DC
À medida que as livrarias morrem, adquirem sobrevida os inimigos da democracia, os defensores do livro didático único e os defensores do livro como instrumento de colonialismo cultural.
Na extraordinária obra A Biblioteca de Babel, falando de livros e bibliotecas, Jorge Luis Borges afirma o seguinte: “Suspeito que a espécie humana, a única, será extinta e que a biblioteca permanecerá: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorrompível, secreta”.
Umberto Eco afirma que a situação conhecida como cultura de massas tem lugar no momento histórico em que as massas entram como protagonistas na vida social e participam das questões públicas. Efetivamente, podemos dizer que grande parte da população da América Latina não participa das questões públicas por desconhecimento dos seus direitos e deveres na sociedade. Para participar é necessário estar informado. A carência de livrarias, bibliotecas públicas, o analfabetismo e a desnutrição infantil impedem que estas populações tenham acesso à informação.

4 Comments:

At 9:04 PM, Blogger Chessmann said...

Prezado Emir:

Confesso que ultimamente tenho comparecido a livrarias apenas para distrair a vista enquanto tomo um sorvete ou ver o conteúdo de algum livro.

Tenho comprado pela Internet, sempre a preços mais baixos.

A livraria tem sido apenas uma vitrine para mim... será que estou sendo injusto com elas?

Por outro lado, será que elas merecem tanta consideração?

Abraço.

 
At 5:01 AM, Blogger Leonardo said...

Confesso que gosto muito de ler, mas o maior problema é que os melhores livros tem o preço muito elevado. Esses dias tive grande interesse em comprar uma biografia do Che Guevara. O preço ? 90 reais. Leitura no Brasil é um privilégio de poucos.

 
At 2:23 PM, Blogger Equiano said...

Uma boa reflexão, Emir. O que mais me deixa angustiado é saber que, para além do fechamento das livrarias, a sobrevivência destas muitas vezes estão vinculadas ao consumo de obras grosseiras, como as inúmeras publicações voltadas para o mercado dos consursos públicos ou as literaturas de auto-ajuda.

 
At 6:57 AM, Blogger De fígado e coraçao said...

Realmente, o preço das livrarias não colabora para que as pessoas tenham acesso aos livros e à leitura, mas por outro lado existem inúmeros sebos e bibliotecas espalhados pelo país, com preços baixos, e no caso de algumas bibliotecas, de graça.
Aqui em Porto Alegre, recentemente fechou a Livraria do Globo. O prédio antigo, histórico, tornou-se uma loja de sapatos. Isso me causou imenso pesar, a livraria fazia parte da historia da cidade.

 

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